03/06/22

Por que mesada educativa para as crianças e adolescentes é importante

Evitar que jovens se tornem consumistas é desafio em um mundo cheio de publicidade que valoriza o ter Escola de Montes Claros já recebeu dois prêmios para iniciativas empreendedoras.

A mesada educativa é uma quantia em dinheiro que pais e responsáveis dão, periodicamente, com o intuito de ensinar finanças para as crianças e adolescentes. Mas mesada não é só dinheiro. É possível inserir o assunto na vida dos pequenos, associado a questões como sustentabilidade, meio ambiente, consumo consciente entre outros temas.

O objetivo deve sempre ser ensinar as crianças a gerenciar seu próprio dinheiro. À medida que a criança passa a ganhar um valor fixo por mês, ou por semana, ela começa a perceber que será preciso se organizar para não gastar tudo de uma vez. Ela perceberá a necessidade de fazer escolhas e que em alguns momentos será preciso renunciar algo.

"A mesada, quando feita com planejamento e diálogo, ajuda no desenvolvimento de habilidades como responsabilidade, gerenciamento de dinheiro e tomada de decisões", explica Gabriel Roizner, cofundador e CEO da Mozper, fintech que ajuda pais, mães e responsáveis a educar crianças e adolescentes para tomar decisões financeiras inteligentes e responsáveis.

Mas, para que os impactos do consumismo sejam cada vez menores, a principal orientação é que as crianças e jovens sejam educados financeiramente desde a infância, de acordo com o presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), Reinaldo Domingos.

"A falta de paciência e o constante desejo por coisas novas são indícios de que crianças e jovens podem estar se tornando consumistas e devem ser educados financeiramente. O ideal é que aprendam, o quanto antes, a poupar para conquistar seus sonhos", orienta Domingos.

Autor do livro "Mesada não é só dinheiro", o presidente da Abefin ressalta a importância de "mostrar que até mesmo os que acham que não dão mesada aos seus filhos, estão enganados, uma vez que, toda criança, a partir dos três anos de idade, começa a ter contato com alguma quantia".

As entregas voluntárias são uma forma de mesada, porém, não sistematizada. O contato com o papel-moeda na infância pode ocorrer de forma também indireta, quando a criança vê seus pais comprando ou vendendo coisas; e de forma direta, quando ela passa a ter algum dinheiro nas mãos.

"As informações transmitidas nessa tese passam não só pelo aspecto financeiro, mas também pelo viés do empreendedorismo social, ecológico, solidário, entre outras formas de relacionar o dinheiro com a realidade de forma proveitosa para todos. Assim, são estabelecidos oito tipos de mesadas que podem ser aplicadas junto aos jovens: voluntária, financeira, de terceiros, econômica, empreendedora, ecológica, de troca e social."

Escola cria moeda social interna
A Escola Estadual Coronel Filomeno Ribeiro, em Montes Claros, Norte de Minas, já recebeu por duas vezes o Prêmio Sebrae Educação Empreendedora. A metodologia  acontece de forma interdisciplinar desde 2016. Situada em área de vulnerabilidade social, a unidade de ensino desenvolve 12 modalidades de empreendimentos. Foi criada uma moeda social interna, a Leuro, que remunera iniciativas, criatividade, participação, inovação entre outras ações.

Ao término da leitura de um livro, o aluno recebe uma moedinha que pode ser usada na cooperativa estudantil, explica a diretora Clelma Rodrigues Martins Mendes. "Se leu 25 livros, recebe um cheque para aplicar ou sacar na cooperativa, nela há um espaço 'Shopping do Bom Leitor', onde pode comprar brinquedos, livros, material escolar. Não é só isso, dentro de matemática aprende-se consumo responsável inteligente, gestão de finanças, e, a cada conteúdo didático, vai desenvolvendo habilidade e competências."

A tapeçaria é um dos exemplos de módulo educativo interdisciplinar. A Tapeçaria Aladim, além instigar o imaginário onde o design é parte das aulas de geometria, em ciências e química estudam a composição dos materiais extraídos de resíduos descartáveis, onde entra a geografia e meio ambiente na interação sobre formas de preservação. A produção é vendida na Feira de Empreendedorismo.

"Esse aprendizado exerce o transbordamento de conhecimento aos familiares. Uma forma de reforçar o orçamento familiar", explica Clelma. A escola tem três níveis de ensino, fundamental I e II e o Médio e conta com 259 alunos matriculados.

Noção de limites
Segundo a psicóloga Vânia de Moraes, a mesada é uma boa estratégia para dar à criança e adolescente noção de limites ( manter-se dentro do limite estipulado).  Além da aprendizagem da administração financeira, a mesada  cria uma oportunidade valiosa para se desenvolver  a capacidade de contenção do impulso.

"Poupar, fazer planos e esperar pelo melhor momento para se obter algo mais valioso, leva a criança a desenvolver a noção de que ela é capaz de trocar algo que poderia ter agora por algo mais valioso que ela terá se souber esperar. Isso fará muita diferença na vida da criança/adolescente, não só  em sua relação com o dinheiro, mas em outros aspectos da vida em que a impulsividade pode levar a decisões desastrosas", explica Vânia.

Valéria Lanna,  professora de matemática da Escola Estadual Pandiá Calógeras, em Belo Horizonte, alerta que o tema educação financeira vem sendo cada vez uma das ferramentas cruciais para que o estudante possa perceber que ele pode ter uma vida melhor, que tem a possibilidade de se planejar financeiramente.

"O que vou fazer com a minha mesada? Vou ao cinema? Vou comprar aqueles óculos que tanto quero? Ou vou guardar para ir aquela festa em outubro? É preciso mostrar para o estudante como calcular juros ou descontos sucessivos, para que eles saibam aproveitar e entender as várias promoções incríveis que a mídia divulga. Devido ao consumismo desenfreado, percebemos que o estudante precisa de uma luz para essa falta de visão na necessidade de se preparar financeiramente e sair desse círculo vicioso em repetição dos padrões das famílias endividadas, com vidas comprometidas em trabalhar apenas para pagarem juros e ou contas", afirma Valéria.

Confira formas de ensinar as crianças a guardar dinheiro, segundo Reinaldo Domingos:

Considere dar mesada
Caso a criança tenha contato constante com o dinheiro, pedindo valores com frequência, considere dar mesada. Lembrando que o conceito de mesada vai muito além de apenas dar um valor mensal. Além disto, o ideal é que ela o jovem ou criança poupe parte desse valor e use a outra parte para o consumo. Não é interessante poupar tudo, tão pouco consumir tudo - quando se trata de dinheiro, é preciso ter equilíbrio.

Converse sobre sonhos
Toda criança ou jovem tem desejos e sonhos, que podem ser materiais (como ter brinquedos e livros novos) ou não materiais (como uma experiência de viagem, por exemplo). Reserve um momento em um ambiente agradável para falar sobre os sonhos. Para que a criança tenha os sonhos sempre em mente, peça que desenhe e converse sobre cada um deles. Assim ela terá constante estímulo para realizá-los.

Ensine a guardar em cofrinhos
É interessante que as crianças poupem para seus sonhos em três cofrinhos de tamanhos e cores diferentes, um para cada sonho: de curto prazo (a ser realizado em até um mês), médio prazo (seis meses) e longo prazo (até um ano).

Veja se a escola debate Educação Financeira
Diversas escolas da região oferecem aulas de educação financeira para os alunos, por isso, é importante entender como a escola do seu filho debate esse assunto e, se não, buscar incentivar a abordagem desse tema. Quando a responsabilidade de educar financeiramente as crianças é compartilhada, os resultados são melhores.

Dê o exemplo
As crianças são observadoras e aprendem muito pelo exemplo, portanto é importante que os pais tenham educação financeira, poupem para conquistar seus próprios sonhos e consumam de forma consciente. 

(Elian Guimarães - Estado de Minas)

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