07/05/18

Fundos de previdência investem cada vez mais em ações

Mas especialistas alertam para riscos

Uma dose (grande) de segurança é necessária na hora de pensar no plano de previdência privada, mas com juros no mais baixo patamar da História — 6,5% ao ano — e um sistema de aposentadoria pública que deve sofrer uma reforma, o investidor se vê obrigado a buscar alternativas que possam oferecer maior retorno. Uma opção são as carteiras que investem até 70% do patrimônio em renda variável. Especialistas veem essa alternativa como positiva, mas lembram que a exposição a esse tipo de ativo (ações, moedas) deve cair à medida que o momento da aposentadoria fica mais próximo.

Esses fundos passaram a ser possíveis desde o fim do ano passado, quando o Conselho Monetário Nacional (CMN) elevou de 49% para 70% a fatia do patrimônio dos fundos de previdência de varejo que pode ser aplicada em renda variável. No caso das carteiras destinadas a investidores qualificados, ou seja, aqueles com aplicações de ao menos R$ 1 milhão, a parcela subiu para 100% dos recursos. Já dentro da nova legislação, a Icatu Seguros lançou, há pouco mais de uma semana, seis fundos de previdência com alocação de até 70% em renda variável. Com taxas de administração entre 1,5% e 2%, as estratégias são de responsabilidade de gestores independentes como Vertra, Alaska, Bogari e Vanguarda. Nesses casos, há ainda a cobrança de uma taxa de performance de 20% que incide sobre a rentabilidade que excede a meta do fundo, como o CDI (taxa de referência do mercado interbancário e que segue de perto a Selic). — O movimento de tomada de risco foi mais pronunciado nos fundos de previdência. Em um primeiro momento, os multimercados absorveram grande parte dessa migração, mas acreditamos que a próxima pernada virá dos fundos de previdência em ações. A diversificação é uma necessidade nesse cenário de juros baixos — prevê Felipe Bottino, diretor de Previdência da Icatu Seguros.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que os fundos de previdência privada possuem um patrimônio líquido de R$ 755,9 bilhões, sendo que 93% estão aplicados no segmento de renda fixa. A expectativa é que, com a permanência dos juros em patamares baixos por mais tempo, ocorra uma redução dessa concentração.

Perfil do cliente precisa ser considerado

Para estimular esse movimento, a Icatu estabeleceu em R$ 100 o investimento mínimo nos fundos que foram criados. De acordo com Bottino, o valor é baixo para permitir que a diversificação seja feita de forma gradual. Além das carteiras em ações, a empresa de investimento tem 15 fundos de previdência multimercados, de diferentes gestoras independentes. O executivo admitiu que a aplicação em fundos focados em ações representam maior risco, mas disse considerar a migração incontornável. — É uma estratégia mais arriscada, é claro, mas o movimento é inevitável diante da redução da Selic. Se quiser ter uma renda razoável, ele terá que fazer isso. Nos EUA, por exemplo, quem se aposenta tem 50% do seu patrimônio aplicados em ações — pondera. — O investidor poderá fazer um test drive, aplicando 5%, 10% nesse tipo de fundo.

Os fundos multimercados com foco em previdência foram os que registraram maior captação líquida no ano dentro dessa categoria, segundo dados da Anbima, levantando R$ 5,34 bilhões. Os fundos de previdência com foco em renda fixa, por sua vez, levantaram apenas R$ 565 milhões, e os de ações, R$ 411 milhões. No entanto, este último segmento é o de menor participação. José Alberto Tovar, sócio-fundador da Truxt Investimentos, conta que a gestora lançará, ainda neste semestre, dois fundos de previdência, sendo um deles com foco em ações e o outro, em multimercados. — Ações e previdência fazem muito sentido, já que as duas visam ao longo prazo. E a regulamentação melhorou muito nos últimos tempos — explica Tovar.

A XP Investimentos deve, no decorrer deste mês, começar a distribuir fundos de previdência de ações e multimercados que podem aplicar até 70% de seus recursos em ativos variáveis. Na avaliação de Gustavo Pires, sócio da empresa e responsável pela plataforma de fundos, a mudança feita pelo CMN no fim do ano passado permite atender a investidores com maior apetite por risco. — A tomada do risco, no entanto, vai depender do perfil do cliente e do tempo que falta para ele se aposentar — diz Pires. 

Segundo ele, um fundo de previdência com maior exposição em renda variável não deve ser oferecido a clientes considerados conservadores, independentemente da idade. Já para aqueles com perfil moderado, passa a ser uma alternativa, mas desde que eles ainda estejam na fase de acúmulo de patrimônio. — Temos de levar em conta o perfil de risco e o momento de vida do investidor. Não faz sentido investir em ações caso se esteja perto da aposentadoria. E também não faz sentido alguém com 25 anos investir 100% em renda fixa de baixo risco. Há o perigo de, lá na frente, não ter o necessário para a aposentadoria — explica Pires. Ele ressalta ainda que, à medida que o tempo passa, é possível fazer a portabilidade (sem tributação) total ou parcial desses recursos para fundos de previdência mais conservadores. 

(Rennan Setti - Ana Paula Ribeiro  - O Globo)